Entrevista: Twisted Sister - I Wanna Stop!!!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
O vocalista Dee Snider, que veio ao Brasil pela primeira vez com o grupo, comenta o lançamento da nova edição de Stay Hungry, o sucesso que a banda tem feito nos últimos anos, o disco natalino A Twisted Christmas e confirmou que não tem mais vontade de compor e que sua saída do quinteto acontecerá em breve
Antonio Rodrigues Junior e Paula Fabri
“I Wanna Rock” parece que aos poucos está deixando o vocabulário do vocalista Dee Snider, que está preferindo dizer “I Wanna Stop” (Eu Quero Parar). Com mais de 60 anos de idade, o vocalista Dee Snider não esconde mais de ninguém a vontade de encerar sua carreira musical, mesmo com o sucesso que o Twisted Sister insiste em conquistar depois de quase 40 anos de estrada. O grupo, que está lançando uma edição comemorativa de 25 anos do álbum Stay Hungry, desembarcou no Brasil recentemente para seu primeiro show e talvez único em território tupiniquim.
É impossível pensar em Twisted Sister e não lembrar dos clássicos “I Wanna Rock” e “We’re Not Gonna Take It”. As duas músicas estão presentes no álbum Stay Hungry (84) e se tornaram alguns dos maiores sucessos do rock durante a década de 80. Porém tamanha audiência nunca mais foi alcançado pelo grupo, que teve diversos problemas até se separarem em 88. A partir de 99, os integrantes da formação clássica – Dee Snider (vocal), Eddie Ojeda (guitarra), Jay Jay French (guitarra), Mark Animal Mendoza (baixo) e A.J. Pero (bateria) – passaram a se reunir em ocasiões específicas até 2004, quando decidiram regravar o clássico Stay Hungry, rebatizado de Still Hungry.
Dois anos depois, o vocalista Dee Snider esteve prestes a deixar o conjunto, mas decidiu continuar para o lançamento do álbum A Twisted Christmas. Um CD repleto de canções natalinas em versões heavy metal, que acabou se tornando um dos trabalhos mais bem sucedido da carreira do grupo.
Neste ano, foi a vez de lançarem uma edição especial de Stay Hungry, que comemora 25 anos do original. A nova edição, além dos sucessos remasterizados, traz faixas demos e canções inéditas gravadas na época, mas não aproveitadas no lançamento. Além de uma música nova “30” composta recentemente pelo vocalista. O quinteto não tem feito mais grandes turnês, porém os shows esporádicos sempre tem atraído grandes platéias. O mesmo aconteceu na apresentação realizada dia 14 de novembro no Via Funchal, em São Paulo.
Para o ano que vem o conjunto ícone do glam metal promete abandonar a maquiagem e perucas passando a se apresentar de “cara limpa”, o que tem gerado opiniões contraditórias. Mesmo assim o futuro do Twisted Sister é inserto, pois o vocalista continua dando sinais que pretende deixar o grupo e se dedicar exclusivamente aos seus outros projetos, como rádio, televisão e cinema.
Nesta entrevista exclusiva, o vocalista Dee Snider comenta o lançamento da edição comemorativa de Stay Hungry, o material antigo presente na nova edição, as outras canções que ainda sobraram, a música inédita “30”, o eterno sucesso do disco e das faixas “I Wanna Rock” e “We’re Not Gonna Take It”, falou também sobre o trabalho A Twisted Christmas, a repercussão de seu lançamento, o musical que está criando baseado nele e o possível lançamento em DVD. O músico também esclareceu a idéia de abandonar a maquiagem e perucas e adiantou que não tem mais vontade de compor para o Twisted Sister e que sua saída do grupo não deverá demorar a acontecer…
Neste ano, o grupo lançou uma edição comemorativa de 25 anos do álbum Stay Hungry, que já havia ganhado uma outra versão rebatizada Still Hungry em 2004. Por que decidiram lançar esta nova edição comemorativa?
Dee Snider: Na verdade isso virou uma confusão! O que acontece é que na época em que estávamos gravando as músicas de Stay Hungry, a banda começou a ter problemas, entre nós, com a intromissão da gravadora e desentendimentos com o produtor. Então o que resolvemos fazer em 2004, quando nos reunimos, foi regravar as canções e lançá-las da forma que pretendíamos originalmente. Esse exercício serviu como uma terapia. Já o Stay Hungry que está sendo lançado para celebrar seus 25 anos, incluímos material inédito como faixas demo e coisas que gravamos naquela época, mas não entraram no disco. E ainda uma nova música: “30”.
Como você falou esta nova edição contém material inédito, canções que não foram aproveitadas na época. Como foi vasculhar esse material antigo?
Foi algo bem interessante! Apesar de ter escrito todas essas músicas, após tanto tempo, havia esquecido da maioria delas. Olhando as coisas agora, sinto que a decisão certa teria sido gravar um disco duplo.
Então além deste material antigo e inédito incluído no novo disco, houve sobras de estúdio? Como foi escolher o que entraria no repertório ou não?
Ainda temos outras canções. Não estive envolvido na escolha das faixas diretamente, pois além do Twisted Sister tenho mais uma porção de projetos que necessitam de minha atenção. Então o restante da banda reuniu fãs, mas grandes fãs mesmo, e eles ouviram esse material na integra. No final houve uma pesquisa do que eles gostariam de ouvir nesse álbum e a partir disto escolhemos o que seria incluído nesta edição.
Há planos de lançar as composições que mais uma vez ficaram de fora em um disco no futuro?
Espero que não (risos)! Brincadeira! É que não consigo ver as pessoas comprando mais nenhuma edição especial de Stay Hungry (risos)! Já temos o original, a versão especial e a nova… É muita coisa! Mas por outro lado não descarto nada. Me sinto imensamente feliz em saber o quanto este disco foi e é importante para outras pessoas além da banda.
Para o lançamento desta nova edição, o grupo gravou a faixa inédita “30”, que ganhou até um videoclipe. Como esta canção se encaixa em um disco com material tão antigo e o que pode nos contar sobre a gravação e composição desta música?
Não tenho idéia (risos)! É engraçado quando me dou conta que o sucesso do disco se deu quando eu tinha meus 20 anos e que hoje estou com 60. Nunca achei que chegaria até aqui, pensei que morreria antes (risos). Escrevi esta canção quando estava participando de um reality show. Lá tive como companheiros o rapper Bobby Brown, Cisco, Julio Iglesias Jr, Diana que fez o American Idol. A idéia foi unir músicos de estilos musicais diferentes e mandar todos para o Tennessee e nos transformar em estrelas do country. Trabalhamos com compositores especializados e me dei mal, porque o resultado foi que escrevi um rock and roll no qual tive de incluir um banjo (risos). Mas quando sai do programa os caras da banda disseram que queriam gravar esta composição. Ela basicamente fala sobre ser hoje um cara de 60 anos que ainda agita muito, como pode ser visto no clipe, assumindo que já tive 30 anos, mas isto faz muito tempo.
O disco Stay Hungry é definitivamente o trabalho de maior sucesso da carreira do grupo. Mas o lançamento de tantas novas edições não te deixa receoso de que o Twisted Sister fique preso apenas a este álbum?
Não tenho medo, aceito isto! A idéia há cinco anos atrás, era de fazer uma reunião e alguns shows e não reviver a banda. Nos juntamos por todas as razões certas. Isto é, não foi por dinheiro e fama, pois estou indo muito bem com meus outros projetos na televisão e no rádio. O motivo que me fez aceitar isto foi reatar amizades que acabaram de um jeito ruim e concluir minha carreira musical tendo meus parceiros de conjunto como amigos novamente. Temos consciência de que somos um grupo antigo que toca músicas velhas, mas é isto o que as pessoas esperam de nós. Não sinto que tenho de provar nada a ninguém, já escrevi as composições que queria, não sou mais bravo e irritado como no passado. Hoje sou uma pessoa feliz e me deixa mais feliz ainda quando as pessoas vão a nossos shows e saem satisfeitas, pois tocamos todas as canções que eles queriam ouvir.
Esse trabalho ainda é o mais bem sucedido da carreira do grupo muito por causa dos clássicos “We’re Not Gonna Take It” e “I Wanna Rock”. Quando compôs essas músicas passou pela sua cabeça os sucessos que ambas se tornariam?
Já me fizeram esta pergunta por diversas vezes e o que respondo é que não acredito que ninguém dos Beatles, Rolling Stones, Guns N’ Roses e Metallica tinha a consciência do que sua música se tornaria quando estava compondo. Acredito que ninguém é tão metido assim. Bom, talvez Axl (risos). Brincadeira! Acho incrível a magnitude que as faixas deste disco tomaram. Elas são praticamente músicas folclóricas, aonde uma pessoa em qualquer lugar do mundo, alguém que nem imagina quem é Twisted Sister, saberá cantar “I Wanna Rock”.
O último álbum de estúdio do grupo, exceto a nova edição de Stay Hungry, foi o CD A Twisted Christmas (2006), composto por versões heavy metal para canções natalinas. Como surgiu a idéia de fazer este disco?
Para chegarmos nesta decisão houve situações que fizeram com que gravássemos este CD. Já haviam passado dois anos do início de nossa reunião e estava prestes a deixar a banda, pois sentia que a reunião já tinha completado seu objetivo. Já havia negado gravar discos com composições novas algumas vezes e então Jay Jay apareceu perguntando o que eu achava de lançar um trabalho natalino. Aceitei e ele até ficou bobo com minha resposta. Disse sim ao projeto porque lembro que durante os anos 80 nos feriados de final de ano éramos obrigados a ouvir canções de natal regravadas em diversos estilos, por todos e qualquer lugar que fossemos. Tinha a versão disco, reggae, jazz, as clássicas e muitas outras. Isso era irritante e me perguntava porque diabos ninguém havia gravado versões heavy metal? Voltei para casa pensando sobre o assunto, queria convidar músicos para participarem disto, mas como bom americano, só lembro das goteiras quando chove. As festas passaram e acabei esquecendo a idéia. Quando Jay me fez a proposta foi como se 30 anos de memórias guardadas voltassem a minha mente, então aceitei.
Como foi a repercussão deste trabalho?
No final ele foi nosso álbum mais vendido após o sucesso de Stay Hungry. Depois disso Jay veio a mim e disse: “você não pode ir embora agora”. Então decidi ficar na banda. Não tenho mais vontade de compor, então fica complicado continuar tocando no T.S., mas com este sucesso não tive muita escolha.
No passado vocês lançaram um DVD com o material de A Twisted Christmas, você pensa em colocar no mercado um novo vídeo, mas desta vez com o musical?
O processo do musical ainda está no começo. Acabei de compor as canções, mas ainda tem muito de ser trabalhado em cima disto. Patrocínios a serem conseguidos e coisas técnicas a serem feitas. Além disso, ainda temos o problema de agenda. Há 20 anos atrás o Twisted Sister era a prioridade de todos nós, morávamos juntos e só fazíamos música. Hoje a vida é outra, então é uma coisa que demora a ser lapidada. Minha idéia é focar nele durante o inverno, mas tenho planos de rodar um novo filme, Strangeland, e se as filmagens forem começar assim que voltar para casa, o musical ficará para depois. Com sorte, estamos esperando ter algo mais concreto no ano que vem, aí pensaremos em algo como um lançamento em DVD.
Você mencionou não ter mais vontade de escrever para o Twisted Sister assim como a vontade de deixar o grupo. Ao mesmo tempo que diz que não quer desapontar os fãs do conjunto. Não acha que eles sentem falta de material novo?
Não! Estou cansado e não tenho mais vontade de compor coisas novas. Sou uma pessoa que fala o que pensa e acho que não gostaria de lançar uma música de banheiro. Deixa explicar, já vi diversas bandas antigas lançando trabalhos novos e já fui em shows aonde na hora que o grupo anuncia que vai tocar uma composição inédita o público aproveita para ir ao banheiro. É uma coisa massiva. Acho que desapontaria os fãs se o T.S. não tocasse seus clássicos. Amo AC/DC e achei o CD novo bom, mas você vai ao espetáculo e eles selecionam quatro, cinco faixas novas para tocar. No final do show se ouve fãs dizendo: “há gostaria que eles tivessem tocado esta, ou aquela”. Apesar deles fazerem performances de duas horas sempre fica faltando algum clássico. Assim como o Iron Maiden fez há alguns anos, quando tirou a turnê inteira para tocar apenas as faixas do disco que tinha lançado. A reação disto é que eles decepcionaram muitas pessoas que foram assistir ao show e olha que os fãs deles são os mais leais do mundo. Tanto que atualmente a banda estava em turnê tocando apenas seus maiores hits. Nunca sai de uma apresentação com alguém me dizendo que deveria ter tocado tal música, então acho que eles não sentem tanta falta de novidades.
Foi anunciado que a banda deve deixar de usar maquiagem após os shows de divulgação da nova edição de Stay Hungry. O que levou vocês a tomarem essa atitude? É uma maneira de você aos poucos ir se despedindo dos fãs?
Sim! Cada show vou tirando uma parte do corpo até não sobrar mais nada (risos). A verdade é que gosto da maquiagem, do processo de faze-la, mas a decisão foi tomada por diversas razões. Primeiro pela aparência, simplesmente não temos mais 20 anos e depois porque estamos juntos há cinco anos e queremos mostrar o que somos hoje.
Esta decisão de excluir maquiagens e perucas já foi tomada e anunciada. Como tem sido a repercussão desta notícia entre os fãs?
Não sei ao certo se os fãs realmente entenderam que ano que vem não estaremos mais usando maquiagem, já que a notícia saiu faz um tempo e eles continuam nos vendo maquiados. Mas temos recebido mensagens e parte apoiou a decisão e disse estar pronta para ver isto. Outros se dizem decepcionados… Já perguntaram se esta decisão será para sempre. Simplesmente não sei. O que sei é que apesar de termos anunciado isto, os shows para o ano que vem continuam sendo marcados. Na verdade, acho que as pessoas tem marcado mais apresentações pelo fato de que estaremos de cara limpa.
E como foi que a vontade dispensar a maquiagem surgiu?
Uma tradição nossa é que todo show de Halloween tocamos sem maquiagem. Numa época em que todo mundo se transveste, aproveitamos para tirar as nossas fantasias. Há cerca de dois verões, tocamos em um festival que teve o Kiss como banda principal, além de shows com Mötorhead, Whitesnake e Jorney. Tive um problema com meu vôo e para chegar no festival tive de pegar um helicóptero. Cheguei cinco minutos antes de tocar e subi no palco como estava. O público gostou e mais ainda acharam legal o fato de não termos dado desculpas sobre isso ou aquilo. Simplesmente subimos lá e fizemos o que sabemos, isto é, rock. No dia seguinte, voltando para casa, novamente em um avião, vi um homem com o jornal. Lá tinha uma foto enorme minha e pedi que ele traduzisse a resenha. Lá dizia que tínhamos sido o único grupo que havia conectado com 100% do público e o nosso foi a melhor apresentação do final de semana. Então o homem com o jornal disse: “sua foto esta na capa do jornal e não a do Kiss, isto já diz tudo”. E ele tinha razão. Queremos mostrar para as pessoas que sabemos fazer rock sem precisar usar maquiagem.
Você disse que o motivo que te fez aceitar se reunir com seus ex-companheiros foi reatar relacionamentos, reconstruir amizades. Acha que após estes quase seis anos vocês conseguiram superar os problemas do passado?
Sim e não! O sim é porque voltamos a ser amigos e nosso relacionamento é ótimo e uma das razões que falo em deixar a banda é que não quero me ver de saco cheio destes caras novamente. Quero manter o que temos hoje. O não é pelo período no qual voltamos ao estúdio para as regravações de Stay Hungry. Apesar do tempo ter passado e reviver aquilo ter tido um lado muito bom, também teve o negativo, no qual relembramos problemas e situações que deixaram cicatrizes. É como se ter uma namorada e ser traído por ela. Apesar da dor, você se esforça para reconstruir o relacionamento porque a ama e no final as coisas dão certo. Então 20 anos mais tarde se depara com fotos, lembranças que te levam de volta aquela época. A dor também volta e uma coisa que não quero é que tais cicatrizes voltem a abrir.
Você disse estar cansado de escrever para o T.S. e falou que antes de lançar A Twisted Christmas estava deixando a banda. Qual é a principal razão que te faz pensar em deixar o Twisted Sister para sempre?
Não me entenda mal. Amo o que faço. Tenho 60 anos, mas continuo magro, cheio de energia e assim como todo mundo eu mesmo não acredito nas coisas que sou capaz de fazer quando estou em cima de um palco. Mas acho que chega uma hora que temos de ter os pés no chão. Sei que ainda sou capaz de fazer um show inteiro animando cada pessoa presente, mas acho necessário saber a hora de sair de cena. Quero deixar as pessoas com a melhor impressão possível. Que elas se lembrem de mim dando o sangue e não que chegue o dia em que venham até mim e digam: “Dee, acho que deu o seu tempo”.









